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Sexta-feira, 26 de maio de 2017.
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Danilo Patrício
Jornalista, doutorando em História pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)


 

Das muitas juventudes
   
Quero desejar, antes do fim,
pra mim e os meus amigos,
muito amor e tudo mais;
que fiquem sempre jovens
e tenham as mãos limpas
 e aprendam o delírio com coisas reais.
Belchior, Música “Antes do Fim”

Juventude Conselheirista? Pois bem, tomara que saiam novas cores além da branca. Que bom! 
Fico feliz por que um amigo me dizia que existiam somente dois tipos de conselheiristas: o que esteve no Belo Monte com Conselheiro, combatendo, de preferência; e o que leu Os Sertões, de Euclides da Cunha. Recentemente, além dos pesquisadores, que também vejo como conselheiristas, vi a leitura em Quixeramobim do Romance, livro-reportagem, despertar e estreitar os contatos entre conselheiristas e os canudenses da Bahia. Uma comitiva baiana com 20 pessoas esteve em Quixeramobim no Conselheiro Vivo 2012, a partir de contato da ONG Iphanaq que, mesmo ausente (embora prometido) de suporte institucional/financeiro do município, compareceu à Romaria de Canudos com 5 integrantes, contando também com o apoio da Fundação Canudos. 

Seriam então os bem-vindos desdobramentos dos modos de ser conselheirista, se podemos pensar dessa maneira nas ressignificações da contemporaneidade.    

Após a reativação do Conselho de Cultura e Turismo (Conselhos do Município e não de uma gestão), é criado o Conselho de Juventude, oportuno lugar político para debate prático.  
E eis que surge um Congresso de uma Juventude Conselheirista. Bom, já sabemos que são mais de 5 os jovens conselheiristas, e que, anunciado e organizado pela gestão municipal – embora novamente em fervura -, pode-se entender e principalmente cobrar uma maior ressonância para execução de políticas e demandas presentes em tais universos – Juventude e Cultura – que não nascem da vontade de poucos, mas que estão ligadas às trajetórias de muitos.  

Com transparência de recursos, apresentações e festividades são sempre bem vindas, desde que não fiquem somente como é-ventos, ao relento de encenações restritas. O que tem a ver com isso o local do encontro do anunciado Congresso, bem referido e difundido como Memorial de (?) Antônio Conselheiro? 

Jovem Memorial? O jovem de 16 anos deve achar estranho em Quixeramobim a existência do prédio ainda chamado de Memorial Antônio Conselheiro, procurando e não achando lá a concretude de tal Memória.  Enquanto o jovem nascia, em 1997, o “Espaço” era inaugurado com muita pompa: barulho e muita gastança, já na contramão dos projetos conselheiristas, sempre tendo a oração e o fazer prático, a solidariedade, à frente das aparências. Elas, as aparências, estavam entre as armas dos adversários, que não incluíam Belo Monte/Canudos no Projeto de Brasil excludente da nascente República. 

O Memorial registrava naquele outubro de 1997 a inauguração do que era chamada à época como 1ª etapa.  As outras etapas, 2ª e 3ª, não viriam nos seguidos 16 anos de idade do jovem, que crescia sem entender a existência de um prédio encravado no Centro de sua cidade, e que a cada ano mais se deteriorava. 

Os recursos chegavam: Proares, Governo Federal e Estadual, como ainda indica a gasta placa... A Biblioteca Pública Ismael Pordeus era lá montada, depois saindo, no balance de arranjos de nossa história de leitura, a despeito dos bons profissionais. A quadra de esportes rachava. No que seria palco de teatro (Sugeri o nome de “Teatro Antônio da Mariáguida”, um grande velho sempre jovem!), pregos soltos no lugar do palco enquanto valorosos jovens teimavam em ensaiar, maiores do que as propagandas. Teatro sem conclusão: paredes rachando, cadeiras inadequadas, mato entrando pelas janelas em um espaço sem climatização adequada... Teatro pode ser na rua, sem problemas, vivo, mas se recursos públicos foram destinados para um espaço/projeto, por que não simplesmente aplicá-los? 

- “Envelheçam”, dizia o dramaturgo Nelson Rodrigues aos jovens brasileiros. Podemos envelhecer bem sobre o assunto lendo os arquivos (como as informações e as fotos que seguem) ou conversando com os presentes à dita “inauguração” de 1997. Aspas de uma inauguração sem conclusão. Provocação dos poderes? Antigos vandalismos eleitorais? 

“Inconclusões” – Uma das “partes” da obra, o projeto paisagístico é um dos campos sem conclusão. Mesmo depois de anos parada, conseguiu-se, ainda na década passada, que uma das melhores cabeças do Brasil na área de paisagismo ficasse à disposição para a conclusão dessa parte do Projeto. Juventude vigorosa não faltou. Mas a velhice natimorta sufocou o que seria a dimensão matriz pensada como Memorial. Esforços ao vento? Cabe perguntar se as barreiras para tais movimentações (fora da gestão) são obstáculos das forças políticas oficiais que anunciaram a obra em Quixeramobim, que são realmente contrárias ao que propôs Conselheiro, e aos valores que através dele inspiram a solidariedade – e a arte forte – nos dia de hoje. 

Caminhos que por sua vez incomodariam os interesses pessoais de tais poderes, existindo principalmente para apropriação pública do privado, incomodados pela força contemporânea de Belo Monte/Canudos em Quixeramobim. Sem ter como sempre utilizá-lo privativamente, assiste-se ao uso esporádico do propalado memorial (já minúsculo em muitas formas) por parte delas quando conseguem recursos pontuais para alguns momentos, sem fins muito claros, e como meios sabe-se lá para quê (ou se desconfia). São incursões que nos fazem lembrar a recente “Manifestação dos avessos” ocorridas no Centro da cidade, quando os grupos privados, tolamente travestidos de boas famílias, lançaram seus gulosos corpos nas ruas para defender o direito de manter como privilégios particulares os cargos e espaços teoricamente públicos. 

No caso do chamado Memorial, destruído e paralisado no nomear, são articulados movimentos pontuais que assistimos como se pudéssemos esquecer as primeiras promessas, a grandeza da Memória Conselheiro/Canudos projetada no lugar berço de Antônio Maciel. Movimento de Retirar a infância rica de um Grande Lugar Novo para minar os potenciais futuros desencadeados na cidade.

É possível? Vemos um movimento de devassa da Memória coletiva propagado e propagandeado como se a própria estrutura física do prédio não passasse por problemas, como se ele tivesse vida própria, movimentada. Propaganda e eventos no local que surgem, à parte, como se no decorrer de sua jovem vida não tivesse sido mutilado pelo poder carcomido, na ausência de uma dinâmica de memória mínima associada a Conselheiro e ao seu potente imaginário. Memorial ou Alzheimer?  

É possível esquecer a inauguração e os 16 anos de paralisia? Esquecer o corpo degradado que vemos ao passar pelo local, adentrá-lo, sentindo a memória do que seria, do que ainda pode ser de novo?

Batismos? Se o lugar teve destinações outras, não seria o caso de mudar de nome, para que não se continue um desrespeito configurado na evocação de uma memória que não existe? Ou se continua chamando de Memorial, inconcluso, por ser mesmo essa a ideia que as forças políticas, em sua maioria, possuem do significado de Conselheiro/Belo Monte em Quixeramobim? Conseguiu mesmo o poder oficial novamente impor sua nulidade, seu não-lugar?  

O anúncio das duas etapas que concluiriam a engenharia da obra foi silenciado em nome de novas propagandas, novos estórias, promessas que se desenhavam no faz de conta, para ocupar o lugar do não realizado. Pois sempre é preciso prometer, para alguém acreditar, ignorar. Prometer quase no rumo do altar. Vale indignar-se? Talvez aí já perto da violência. Diferente de prometer convencendo, quando, mais do que santos, talvez na cidade pensem alguns ser possível se aproximar ou ser quase deus.  

Além do que seria o teatro, veríamos já na infância do jovem o desgaste e a deterioração da rampa de acesso, com alusões à caminhada do “Primeiro Conselheiro”. Uma espécie de via sacra com as passagens de Antônio dos Mares pelos sertões, culminando com a grande pedra transportada de modo hercúleo para o local. “Só Deus é grande”, nela está escrito, no ponto mais alto, no que seria um monumento de homenagem, de lembrança e imaginação. Uma ideia que saiu forte na concepção artística de um projeto, mas foi desfeita em silêncio indigesto, encoberta, sem nenhuma explicação diante das expectativas geradas. Assim foram outras tantas estranhezas na vida do ‘jovem prédio’, hoje de infância ignorada, idade de conhecimento indispensável na busca de alguma maturidade, caso se deseje. Esse esquecimento é um seqüestro do que foi desejado por muitos jovens, incluindo os que revigoram a juventude e os que se deixaram envelhecer pelos discursos individuais financeiros. 

Memória e Juventude - Foram abandonas e se apagaram, desbotaram as inscrições das telas e da grande pedra. A presença dela, pedra, parece agora propagar a impotência aos que se movem abaixo dela, diante da paralisia de poucos com poder de decisão, que o usam para não decidir, entendendo que possuem o poder de conceder ou não, de autorizar ou permitir. Isso vale para o jovem dos discursos de hoje? 

 Sem visita, existe o local como quase-obra, ocupada por poucos - usurpada? - e impedida de existir como lugar vivo no meio do Ceará. A porta da rampa está sempre fechada, para Cultura, para a vida pública da cidade. Se “Só Deus é Grande” vale para o Belo Monte, lembrado assim ao Brasil e ao mundo, na memória trucidada e violentada a grande pedra parece dizer sobre o apagamento de memórias que desejaram outras movimentações. Soterradas? Invenções criativas e novos desejos parecem esbarrar no “esqueçam esse Deus solidário que querem compartilhar por aqui”, ou, pior: ‘nem muita reza para mover isso’ - em um tom sarcástico, de ridicularização – ‘é preciso mais, diante da violência que usamos’. Será que tão grandes esforços como o de Euclides e os dos narradores descendentes? 

Mais do que atualizar as velhas notícias - carregadas nas trajetórias dos jovens dispersos – o percurso desenha-se em passos firmes dos que se encontram na juventude como lugar do novo, para novos esforços – eles existem em Quixeramobim -, invenções a partir dos destroços, das ruínas. Talvez pensando e agindo um pouco com o jovem da epígrafe: “é nunca fazer/nada que o mestre mandar/sempre desobedecer/nunca reverenciar”. Mais do que seguir conselhos dos executivos da vez, os jovens que se desprendem do assujeitamento movimentam-se nesse espaço do que parece aniquilamento, mas traz uma forças maiores do que a aparência.  

Os grandes narradores do Belo Monte do século XIX mostraram nos anos seguintes ao massacre que não basta lamentar as catástrofes. Sempre se constrói algo sobre elas. Os ecos disso chegaram até nós. 

“Presentismos”? Que os jovens, conselheiristas ou não, aproveitem os shows, apresentações... (que não os recebam como favor, diante da ausência de política cultural que vivemos). Afinal, transparência à margem, as verbas são públicas, da cota nossa de cada dia, de cada um, embora ainda, tão longe de decidir em maioria, estejamos também distantes da transparência de recursos, como os mais de 30 mil aplicados por conta deste Congresso, apresentado como da Juventude Conselheirista. As cifras devem ter sua importância, assim como a penosa busca por 4 mil reais para se imprimir e lançar “De Quixeramobim a Canudos: Olhares sobre Antônio Conselheiro”. Mais importantes do que ambos, e que não devem ser esquecidos, devem ser a aplicação de recursos na obra onde ocorrerá o Congresso. Inaugurada e inacabada, não vale a piada pelo péssimo gosto. Talvez sim alguns eventos, são divertidos, mas juntamente com investimentos no que fica, permanece. Um bom começo é a transparência contínua sobre aplicação de recursos públicos. 

Vivemos um momento difícil com a insegurança pública em todo município, que vem nos mostrar na crua violência física o quanto distante o progresso anunciado por anos ainda está da qualidade de vida para a maioria. E também por isso, talvez seja o caso de pensar um pouco sobre a provocação de Oscar Wilde: “Não sou tão jovem para saber tudo”. Pensando na obra e no que diz esse artista, chegamos ao lugar do Ser jovem, independente da idade (“a jovialidade está no olhar”), ocupando um lócus de poder realizar, de fazer, mas que não pode nunca se entregar ao vento da ilusão passageira, do efêmero, sem uma caminhada mais firme – e afetiva – ao longo dos anos que passarão para todos nós. 

Uma parte da história é o fardo de carregar esse tempo. E além dessa parte – ao se desconfiar de que o tempo humano não é natural, e refletindo um pouquinho sobre o que se passa -, está o que será feito pela maneira escolhida de como será exercida a juventude. Isso caso se queira ser jovem com o passar dos anos, se não for o caso de se deixar envelhecer antes do fim.  

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