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Segunda-feira, 16 de outubro de 2017.
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Danilo Patrício
Jornalista, doutorando em História pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)


 

Fogueiras Acesas
   
“No sertão os homens ou são irmãos ou inimigos.
E quantas vezes não tirei eu das garras
da onça uma rês sem dono?”
Vaqueiro Arnaldo, em O Sertanejo (1875), de José de Alencar

Preso no breque, encurralado entre a madeira e os outros bois, o bicho se batia esticando o pescoço, quando o estrebuchar já havia sido inútil ante o ferro quente letrado na pele. Era a marca do homem chegando, provocando um som de dor e de raiva no gado marcado. Berro seco. São as imagens e sons que carrego, que me marcaram na infância: Timbaúbas, Filipinas. No cedo da manhã ou no fim da tarde, o chiado do ferro no couro do boi, como me lembra compadre Artur: o berro com a língua pra fora e as pernas esmorecidas. Muxurés e Ibiapabas dele, entre os curiosos que se misturavam aos ferreiros, na ‘catinga de queimado’. Sai de cima menino, se não tu leva um coice!

As flepas de madeira armavam uma fogueirinha baixa, por onde girava a marca de ferro, na ponta de um cabo de madeira, manuseada pelo ferreiro, que se abaixava ou se acocorava no terreiro ao lado do curral. O ferro levava a escrita-posse do dono, fascinante e cruel. Marca da posse e ao mesmo tempo signo de identificação dos bichos nos muitos sertões. Para não esticar o sofrimento tido como inevitável, tangiam todos de uma vez só para receber a marca. Para dentro do breque em fila, no espaço estreito, espremidos ao modo cabeça-garupa. Assim eram dispostos para evitar os rebuliços quando cravado o ferro nas ancas. Ferrado o gado.

Meu avô paterno foi por muitos anos vaqueiro dos Lessa, no Pirabibu. Tempos de quartiação, pagamento ao vaqueiro com a quarta parte do rebanho nascido. Mas nesse pouco pro vaqueiro, não dava muito pra pensar em ferra própria com a descendência dos 14 filhos de José Patrício e Elisa Rodrigues.

O vaqueiro magro, também pescador, madrugava aos sábados e seguia de carroça para negociar na feira da cidade. E com que ele ia o filho Osmar, meu pai, que a partir de um bar no mercado público fazia andar a vida com a compra e venda de gado, a pastorear os rumos da família que formaria.

Foi quem me narrou um dia sobre as curiosidades da composição das ferras, que combinavam letras com números, conforme ordem de nascimento dos filhos. Eu não criei gado, mas nem por isso ele deixou de escrever em mim. Assim quando pai acordava para o matadouro, para o mercado, o curral. Nas viagens em busca de pasto, em tempos de seca, em outras para o Frifort, em madrugadas que tive de caminhão. Leite, queijo, paneladas. E até o berro, entre os amigos vaqueiros, como Zé Ribeiro, e outros tantos que marcam o boi com alegria e festa, astúcias, como nos versos do reisado. “Do meu boi o sebo, é pirão dos bebo”.

É do afetivo chão Pirabibu que brota a autoria de Alencar, valendo-se da poesia sem dono - escritas de vida - para propor a língua nacional, como nos versos da rapsódia Rabicho da Geralda, nas matrizes do cordel: “minha fama era tão grande/que enchia todo o sertão”. A fama do boi ecoa no tempo em que se formam as fazendas nas sesmarias, fundando-se a Propriedade nas terras dos índios Ibus. Por isso o boi falou? Era morrer ou se vaqueirizar!

N’O Sertanejo de Alencar, é “nas faldas da Serra de Santa Maria, no sertão de Quixeramobim” que se faz a Fazenda Oiticica, na mata-virgem. Vestido a caráter, o capitão-mór lá apreciava vaquejadas e o trabalho dos seus. Nesse Pirabibu serrano, o vaqueiro Zé Patrício subia com os filhos para plantar em tempos de seca. E de há muito vamos fazendo nossa autoria, pelas marcas do gado, com quem caminhamos aboiando sertões e cidades. Ao tempo em que recebem marcas de gente, são os bois que permanecem no redemunho dos homens que vão passando.

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