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Sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017.
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João Eudes Costa
Escritor, cronista e membro da Academia Quixadaense de Letras (AQL).


 

Senhor, dá-me essa cruz
   
Possuidor de indústrias, empresas comerciais, representações multinacionais e de vários hectares de terra, um homem, angustiado e inquieto, resolveu afastar-se das obrigações e preocupações de seus negócios.

Como se fugisse da sua própria sombra e desejasse ficar acima dos problemas administrativos e burocráticos, resolveu escalar uma elevação, onde, no cume, havia uma singela capela.

Mesmo na tranqüilidade do isolamento, aquele homem continuou desassossegado. Não sabia como encontrar a paz que tanto desejava. Apesar do patrimônio e do dinheiro, algo faltava para a sua verdadeira felicidade. Com possante binóculo, focalizava suas indústrias, estabelecimentos comerciais e o vasto território rural que lhe pertencia. Sempre preocupado em saber se tudo estava funcionando, se alguém estava negligenciando no trabalho, diminuindo a produção e o conseqüente rendimento.

Cada interrogação que fazia a si mesmo gerava, em seu ambicioso espírito, dúvidas, temor e apreensões. Para quem procurou fugir do massacre das preocupações, aquele comportamento o deixava cada vez mais angustiado.

Trêmulo, nervoso, oscilante, como se o mundo, em ruínas, desmoronasse sobre seus castelos, o homem desiludido desistiu de pastorar e vistoriar sua riqueza. Experimentando um vazio interior, ergueu seu olhar, e, como por encanto, a imagem do cruzeiro, postado sobre a pedra, surgiu à sua frente. Estarrecido, o infeliz ricaço deixou que aquela cruz se aproximasse, cada vez mais, de sua amargura, de sua inquietude e de sua tristeza.

Quieto, sentiu uma brisa confortante apagar as chamas que queimavam a sua alma. O céu desceu a seus pés. O espírito se ergueu, enquanto o corpo, livre dos grilhões da cobiça gravitava num passeio tranqüilo, como se fosse seguro pelas mãos dos anjos, que passeavam sorridentes no azul celestial.

Emocionado, confortado e fortalecido, o homem, até então infeliz, era a imagem do contentamento, da esperança e da paz. Com os olhos fitos na cruz salvadora, deixou que o coração revelasse o êxtase daquele encontro, balbuciando: “Senhor, era a Sua ausência que me fazia mergulhar na escuridão da incerteza e da insegurança. Distanciado de Sua verdade, inebriado pela mentira da materialidade, do orgulho e da ambição, há muito sofria, procurando, inutilmente, paz para a minha angústia, conforto para os dissabores e segurança para as minhas fraquezas”.

Com as lágrimas lavando a poeira poluidora da alma, fechou os olhos, como quem não mais quisesse ver a cor negra de seus pensamentos, da sede insaciável de possuir cada vez mais.

Na bendita reflexão, o homem lembrou-se da vila humilde que, há  bem pouco, avistara, e não pensou residir, nas modestas casas, centenas de crianças mal nutridas, sem escolas, sem roupas e sem pão. Crianças que não possuíam sequer um brinquedo para enganar a fome, porque Papai Noel nunca visitou a sua humilde casa de taipa para deixar um presente no Natal.

Em profunda reflexão, imaginou como seria a casa do seu operário. Adentrou e sentou-se à mesa. Constatou que o pão que ali faltava, fora esbanjado em sua mansão, em banquetes festivos dos badalados acontecimentos sociais. Os lençóis que faltavam para o abrigar as crianças, das chuvas e do frio, estavam, sem uso, guardados nas gavetas de seu luxuoso guarda roupa.

Apesar da miséria e do sofrimento, sentiu, naquele casebre, o calor do aconchego e o milagre cotidiano da multiplicação dos pães. Lembrou-se da frieza e indiferença com que recebia os pobres em sua casa, quando batiam à porta mendigando ajuda e solidariedade.

Ajoelhando-se à imagem da cruz salvadora, teve consciência da pequenez e da sua pobreza espiritual. Compreendeu que só se é verdadeiramente rico, quando se tem o desprendimento de doar algo em benefício de uma causa justa. Aos ricos, que lutam para possuir cada vez mais, não importa que os pobres tenham cada vez menos. O sofrimento dos plebeus não sensibiliza os nobres, porque a miséria do pobre não toca á sensibilidade da luxuosidade  dos ricos.

Reabrindo os olhos, aquele homem, com humildade e feliz com o reencontro com a verdade de Cristo, pediu: “Senhor, põe em meus ombros esta cruz que conforta e nos faz renascer. Cruz que pode ferir o corpo, mas tem a misteriosa força de sarar as chagas da alma, que me fizeram sofrer, por tanto tempo. Esta cruz, Senhor, representa os braços que me acolheram e despertaram para uma vida de ternura, compreensão e amor. Coloque-a Senhor, em meus ombros, mas não a deixe sair da porta de meu coração, para que eu acolha fraternalmente todos que necessitarem de abrigo, ajuda e paz. Permita Senhor que eu desça de Seus braços e tenha força, coragem e fé para caminhar tranqüilo, conduzindo esta cruz, até o topo do calvário da minha salvação”.

Obrigado, Senhor, obrigado.

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