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Domingo, 23 de abril de 2017.
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João Eudes Costa
Escritor, cronista e membro da Academia Quixadaense de Letras (AQL).


 

Se o tempo parasse ...
   
Escolhemos minutos, horas e até dias para voltar pela longa estrada que já percorremos na vida. Nesta caminhada o fazemos de cabeça baixa, como se procurássemos os rastos que levasse aos grandes momentos, às grandes alegrias e às inesquecíveis emoções vividas.
 
Logo uma tristeza invade todo o nosso ser e um desespero nos leva às lágrimas, porque procuramos, em vão, reviver aquilo de bom que o tempo estraçalhou na sua implacável passagem. Inútil perseguir nossas próprias pegadas, porque o vento trouxe a poeira de bem longe para sepultar tudo o que deixamos naqueles caminhos. Depois de tantos anos, de fato, não adianta voltar pela mesma estrada, pois tudo se transformou.
 
Os pássaros que cantaram à nossa passagem tentaram nos acompanhar e se perderam também na imensidão do infinito. As águas dos rios e riachos, que refrescaram nossos pés, rolaram em busca do mar e lá se perverteram, deixaram de ser dóceis, enfureceram-se, talvez desesperadas por não puderem voltar ao sertão. Os que acenaram à nossa passagem, agora também procuram como nós os seus velhos caminhos, e, para desespero, as distâncias aumentam cada vez mais. As pedras que feriram nossos pés foram jogadas para longe, saíram da beira do caminho, como se retiradas, a fim de não servirem de marcos aos caminhantes que desejassem voltar. As árvores que poderiam nos guiar na caminhada do reencontro, também envelheceram, perderam suas folhas que secaram e entristeceram sob a erosão do tempo.
 
Enquanto tentamos o reencontro com o que passou, o tempo ri de nossa ingenuidade, assiste risonho ao nosso pesar, e leva para bem longe o que procuramos, deixando somente a saudade, única coisa que encontramos, porque está presente nas várias esquinas que dobramos.
 
Exaustos, com as pernas trêmulas no transcurso do longo caminho com o corpo alquebrado pelas noites longas de insônia, choramos a nossa solidão, reconhecendo a nossa derrota, falando ao vento que sopra:
 
- Por que, tempo, você passou e nos deixou assim perdidos, sozinhos no vazio de nossas ilusões? Para onde levou a alegria da vida, e onde encontrou tanta tristeza para substituir todos os nossos momentos de felicidade? Para onde você levou a mocidade feliz, cheia de esperanças e encontrou tanta desilusão para por na velhice, e fazer do homem uma figura que rasteja a sombra do que já foi?
 
Tempo, não corra, tenha piedade de nós. Não se apresse tanto. As minhas pernas já não conseguem caminhar com aquela rapidez de outrora e desejamos acompanhá-lo. Queremos encontrá-lo para que você nos mostre, nem que seja por segundos, nossa imagem do passado, pois já começamos a ter saudade do jovem que fomos. Não zombe da fraqueza física. Espere nossa chegada e nos mostre tudo em que pomos amor, mas que fugiu de nosso lado, sem que saibamos por que. Espere um pouco pela nossa caminhada difícil, pois de tanto correr à sua procura estamos esgotados e já não encontramos aquela motivação que nos fortalecia, porque você nos bateu, enganou e nos mergulhou na saudade, onde cambaleamos, sem saber onde nos apoiar. 
 
Paramos para olhar para trás. Por que você, tempo, na sua digressão também não faz uma pausa para que possamos alcançá-lo e reviver toda a nossa alegria do passado?
 
Não seja cruel. Mate-nos aos poucos, mas permita que nos encontremos com o menino que fomos. Deixe-nos juntar os nossos brinquedos que, ingenuamente, deixamos espalhados no palco da vida, e, novamente, encontrar a felicidade na inocência, na simplicidade e na pureza da alma de uma criança despreocupada, cândida e feliz.

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