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Sexta-feira, 23 de junho de 2017.
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João Eudes Costa
Escritor, cronista e membro da Academia Quixadaense de Letras (AQL).


 

Terrível pesadelo
   
Aqui, preso pelos pulsos, enlaçado por fios ligados a aparelhos eletrônicos, vejo a água da chuva que desliza pela janela de vidro, tão sem pressa como as lágrimas que rolam em meu rosto, expressando a tristeza por não poder sentir de perto a chuva que cai lá fora.

A ciência duvidou da robustez de meu coração. Recomendou que fosse testado, através de uma série de exames. Era a fatídica suspeita de um enfarte.

Enquanto me submetia ao massacre dos exames técnicos vendo, de longe, a beleza da chuva tão esperada no sertão fiquei pensando no futuro de um homem com o coração impotente, para resistir às grandes emoções da vida.

Não me apavorou somente a possibilidade de o coração deixar de bater para sempre. O que também me atormentava era ficar ali, naquela cidade sem alma, aprisionado numa gaiola de cimento e ferro, sob o controle de aparelhos e vigilância médica.  O que mais me entristecia, era não poder mais subir as ladeiras da serra, descer em disparada em busca dos vales do sertão, andar livre pelo tapete da relva verde, ou sentir os pés envoltos na poeira da terra seca. Angustiado ficava ao me sentir privado de molhar as mãos no riacho que leva, a passear em seu dorso, galhos secos, folhas que morreram por inanição e tudo enfim que marcasse o término da estiagem e a chegada festiva do inverno.

De nada vale viver sem a particip ação direta nas grandes emoções. Não adianta possuir coração que não seja capaz de suportar a convivência com essa gente humilde do sertão, rindo nas suas alegrias e chorando na tristeza de seus sofrimentos. Fica sem sentido uma vida que se limita a pisar em lugares de tapetes macios, ornamentados com flores artificiais, sem condições de visitar os bairros pobres, penetrar no submundo da miséria e do infortúnio desse povo, esquecido pela sociedade. Não justifica possuir coração que não enfrente o drama do menor desamparado, do pai desempregado, da criança com fome e que não seja capaz de ajudar o jovem envolvido pelas drogas a se erguer da sarjeta.

Vegetar com um coração frágil, inseguro e sem a necessária coragem para defender os mais fracos, não tem sentido. Viver confinado em salas de recuperação, envidraçadas, olhando, de longe, a chuva deslizar em busca dos córregos, sem o direito de gozar do aroma da terra molhada, privado de sentir, de perto, a alegria da natureza num dia belo de inverno, morrer, talvez, seja sofrer menos.

Sempre detestei o egoísmo e não seria agora que iria querer uma vida somente para mim, divorciada dos problemas que afligem os que nos cercam, nos amam e a quem dedicamos afeto.

Quando os aparelhos eletrônicos constataram que o meu estado físico era satisfatório e meu coração estava apto a uma vida normal, sem querer, chorei. Chorei de alegria pela liberdade que me era devolvida. Nunca me senti tão prisioneiro, tão sufocado como durante aquelas intermináveis horas em que passei com os punhos amarrados, como se minhas mãos estivessem, para sempre, imprestáveis para servir, para abraçar e acariciar.

Libertado pela ciência, saí correndo ao encontro da chuva que continuava caindo, sem pressa, como se esperasse por mim para molhar minha alma, refrescar o meu espírito e me acordar daquele terrível pesadelo.
 
Penetrei na noite escura. Pisei na terra firme e ganhei os confins em busca de meu sertão, que já sentia a minha falta, mas esperava pela minha volta, porque nunca desconfiou da fortaleza de meu coração.   

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