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Segunda-feira, 16 de outubro de 2017.
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João Eudes Costa
Escritor, cronista e membro da Academia Quixadaense de Letras (AQL).


 

Verdadeiro tesouro
   
Vivemos, constantemente, angustiados em busca do possuir. Nossos desejos são insaciáveis. Estamos sempre preocupados em conseguir aquilo que não é possível alcançar. Com esta ambição a nos guiar os passos, não encontramos felicidade no que na realidade possuímos, acabando vitimas da infelicidade por aquilo que não conquistamos.
 
Somos eternos insatisfeitos com o que está ao nosso dispor, atormentados com a fantasia da suposta ventura que aos outros pertence.
 
Acostumados a manusear objetos em função de nossos caprichos, vaidades e orgulhos, ficamos em desespero quando tentamos e não conseguimos controlar a força, que, como disse Empédocles, preside a ordem do mundo: o amor.
 
O amor é um sentimento puro, que eclode do âmago de nosso ser para que sejamos felizes. Humilde quando o deixamos percorrer, livremente, os caminhos do bem, da união e da paz. Violento quando tentamos materializá-lo, porque não conseguimos domar o seu poder misterioso.
 
Não podemos medir o tamanho do amor. Quanto menor o consideramos, mais ele cresce e nos envolve numa grande felicidade. Não adianta desejar possuir um grande amor, moldado às nossas conveniências pessoais. O amor não se curva a um mero querer nem serve de instrumento de vingança e maldade.
 
Cresce com raízes profundas no terreno fértil da compreensão e da renúncia. Fenece ao primeiro chamamento da vaidade e do orgulho de quem não tem a necessária capacidade de amar.
 
O amor é um grande tesouro, porém muito diferente da riqueza mundana que, a todo o momento, fazemos gravitar em torno de nossa soberba e a serviço da iniqüidade.
 
O amor tem as suas próprias regras, leais e coerentes, que não podem ser revogadas em proveito da traição e da mentira. Sutil, chega quando não se espera. Parte sem a nossa permissão. Permanece, quando o expulsamos. O amor é o abraço que sentimos, sem conhecer as suas mãos. O beijo que aquece a alma, mas não mutila nem queima o corpo. O carinho que acalma e nos faz dormir, mas não vemos o seu rosto. A presença que faz o bem, que conforta e anima e às vezes não sabemos possuir.
 
A companhia que, mesmo nos fazendo padecer, não queremos perder. O mistério que nos assusta, mas não conseguimos descobrir. O algoz que nos açoita, mas não queremos ferir. A força que nos protege e dela queremos fugir. A sombra que perseguimos e não sabemos encontrar. A felicidade ao nosso lado que não sabemos viver. O pesadelo que nos sufoca, mas não desejamos acordar.
 
A humanidade sempre quis trocar os perenes tesouros espirituais, pelos perecíveis bens materiais, que tornam empedernidos os corações dos homens. Enquanto Moisés buscava de Jesus os mandamentos do amor, as regras que nos levam ao reino celestial, um simples bezerro de ouro envolveu a cobiça dos fracos que não valorizaram e não quiseram esperar pela grande riqueza do amor.
 
Não encontramos a felicidade envolta na opulência das coisas materiais. Quanto mais nos apegamos à ganância do querer, maior é a motivação para possuir cada vez mais.
 
Enquanto isto, o amor é um tesouro que não podemos nem devemos possuir sozinho. Só tem valor se repartido com os outros. Feliz, na realidade, é quem sabe multiplicar o amor. Do contrário, sem amar, sem doar, sem repartir e sem compreender, ninguém encontra a felicidade, porque vagueará, sem destino, em busca do que não conseguirá, do que não mereceu e do que não foi capaz de possuir.

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