Rádio Campo Maior AM
Canudos FM
SM Publicidade
Fundação Canudos
Quixeramobim
Fale Conosco
Você concorda com o aumento no número de vereadores em Quixeramobim nas eleições de 2020?




 
Segunda-feira, 25 de setembro de 2017.
Clique aqui para ouvir nosso Jingle
No ar: Canudos Bom Dia
No ar: Cristo é a Fonte
 
 
23/01/2009
Senhores do tempo

Os profetas da chuva e da seca do sertão se insurgem de uma situação trágica e ingênua gerada de relações incertas com o meio. É nessa tragédia que eles rompem com a esperança e, empiricamente, buscam respostas através dos avisos enviados pela Mãe Natureza para a superação de angústias e melancolias.

Pela observação de fenômenos ocorridos estabelecem relações de causas e efeitos desses sinais, em meio às possibilidades de um bom inverno ou eterno retorno da seca.

Nos últimos anos tem sido realizado na cidade de Quixadá, atualmente no Açude Cedro, o tradicional ‘conclave’ dos profetas da chuva, que se somam a cientistas do Brasil e de várias partes do mundo para troca de experiências entre o saber científico e o saber das experiências, numa demonstração de respeito aos vários tipos de “saberes”, como dizia Paulo Freire.

Nessa conjuntura, os adivinhos apresentam-se como narradores de destinos, fazendo prognósticos do devir, passeando como senhores do tempo. Dentro desse aparato, esses senhores fazem diversas leituras do mundo, misturando o real com o imaginário, numa narrativa rica de significados. Os astros para eles não são apenas enfeites da abóbada celeste, mas signatários de uma verdade não estabelecida, de uma profecia a se cumprir. Animais, árvores, ventos e outros elementos naturais são o caldo quente, a fonte de beber, o lugar comum de observação e verificação de suas experiências.

No elenco desses Quixotes visionários, figuram e atuam nesse terreiro grego respeitados profetas, dentre outros, como Chico Mariano, Joaquim Santiago, Antonio Lima, Erasmo Barreira e Lourdinha, a única profeta mulher do grupo. Nesse pedaço de escrita, gostaria de lembrar com particularidade sobre um profeta, desconhecido do meio da mídia e do qual tenho muito orgulho de falar. Trata-se de Seu Aloísio, meu pai, agricultor, hoje com 82 anos, casado com Dona Zezé e pai de sete filhos.

Morou muitos anos na Fazenda Ferros, no distrito de Pirabibu, município de Quixeramobim, onde vivia com a família numa casinha singela. Lá ele montou seu local de estudos, seu observatório. Uma forquilha de sustentação da estrutura do alpendre da casa servia de balizamento para as espiadas de seu olhar profético. Tinha o Sol e Estrela D’alva, o planeta Vênus, como pontos de referência de suas experiências. Eram cubados através da forquilha o seu mirante, o seu planetário.

O profeta enuncia que “quando o sol e a estrela (D’alva) estão viajando juntos e bastante altos é sinal de que o inverno vai ser tardio e o tempo vai ser escasso”. Porém, continua Seu Aluísio, “se eles se separam - a partir de um ponto de sua observação - e viajam baixo (em relação à linha do horizonte) é sinal de bom inverno e que vai começar cedo”.

Outra percepção dele é em relação ao que chama de “vento geral”, o vento Aracati. “O vento geral governa seis meses, enquanto ele estiver governando não tem chuva ou então o inverno é atrapalhado. Acabando o seu governo aí tem inverno”, conversa. Hoje, Seu Aloísio é trabalhador aposentado e mora “na rua”, zona urbana, onde se distanciou das referências e de suas práticas de vida em relação ao inverno. "Aqui na cidade os prédios não deixam a gente olhar para o céu não, impede de ver as estrelas como eu gostaria”, conversa.

Ainda resta uma experiência que ele guarda, a do “Velho do Canindé”, na qual ele está se baseando para esse inverno:”Esse ano começou com a lua cheia no começo do mês e a lua nova no final, isso é sinal de inverno atrapalhado”.

Certa vez ao ouvir pelo rádio um boletim da Fundação Cearense de Meteorologia (Funceme), segundo o qual no Ceará não haveria inverno naquele ano, se dirigiu à forquilha, onde ficava seu laboratório de pesquisas espaciais, olhou para o céu, se dirigiu até a mim e proferiu essas sábias palavras que sintetizam sua sertanice, esbravejando: ”Essa tal de FUNCEMA, é uma mulher muito da mentirosa!”.

A você meu sábio profeta, Alu, meu respeito e meu amor!
Postado por: Antonio Carlo Cruz - Professor da Rede de Ensino Público de Quixeramobim e integrante do Conselho Fiscal do Iphanaq

  imprimir
enviar para um amigo 
voltar
 

3 Comentários

por Josemir Frutuoso Severo, em 24 de Março de 2009 as 11:13
Professor Antonio Carlos, parabéns pela sua intelectualidade histórica, científica e poética. Você, como sempre, busca resgatar os valores culturais do nosso povo e da nossa região. É interessante perceber que você nunca esquece as suas raízes. Um abraço, Josemir.
por Osvaldo Costa, em 04 de Fevereiro de 2009 as 12:09
Professor Antônio Carlos, Suas narrativas sertanejo-cômico-poéticas devem estar mais presentes neste espaço. Abraço para seu Aluísio, a quem deixamos de entrevistar. Nós é que perdemos. Avante, Guaras.
por Francisco Chagas da Silva Neto , em 24 de Janeiro de 2009 as 11:59
Amigo Antonio Carlos, sua capacidade de expressar a história do cotidiano nos seus textos numa mistura entre o empírico, mitológico e científico nos possibilita uma leitura prezerosa e sábia, nos fazendo refletir sobre os saberes e os sujeitos histórico muitas vezes esquecidos pela força de uma história dominante, eletista e midiática, que não deixa enveredar e valorizar conhecimentos importante como de vosso pai, Aluisio, que aliás gostaria muito de conhecer e aprender um pouco mais com ele. É a partir dessa presopopéia de saberes mútiplos e variados que nos transformados em atores sociais resistentes e autênticos nessa sociedade que insiste em nos empastelar. Valeu Guaru, e que os saberes de nossos profetas se eternize em nosso sertão, mesmo o mundo de hoje dizendo sempre Não!. Um grande abraço!

Deixe seu comentário



Outros:
 
 
 
 
Sistema Maior de Comunicação
Rua Monsenhor Salviano Pinto, 507 – Centro CEP 63800-000 Quixeramobim – CE
Fones: (88) 3441.0263 / 3441.1178 Fax: (88) 3441.1209 - E - mail: contatomaior@sistemamaior.com.br
Copyright © 2006-2017  - Todos os direitos reservados