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04/04/2009
Viver é muito perigoso - O caso de Bernardo Faiado

Para além do pitoresco, o professor Antônio Carlos esculpe o fazer histórico a partir da voz-natureza presente 
no universo dos homens-memória


Era uma manhã chuvosa de 2009. Um domingo. Dia em que minha mãe, Maria
José de Lemos, completava seus bem vividos 80 anos, reunida com quase toda a família. Num pequeno espaço, dividindo conversas paralelas com os outros visitantes, meu pai Aloísio e José Domingos, cunhado dele mais conhecido como Canela, e eu, travávamos um caloroso bate-papo sobre assuntos diversos.

Seu Canela, às vésperas do centenário, muito lúcido, é capaz de citar fatos de nossa história com muita clareza e originalidade, além de ser um grande contador de casos do nosso sertão. Nesse cenário, ele faz correr uma narrativa que farei questão de transmitir tal qual nos foi passada, alimentada pela trilha sonora dos pingos da chuva que gotejavam.

Pois bem, inicia Canela, Bernardo Faiado morava na Fazenda Chapéu, meu berço natal, em frente à Serra do Barro. Lá nessa Serra tinha uma onça que estava pegando tudo o que era de animal. “Ela só é onça até o dia em que comer o meu pudrim!”, sentenciava Bernardo Faiado, que possuía uma égua e um podrinho-filhote.

Passaram-se os dias, conta Seu Canela, um camarada amigo de Bernardo Faiado foi rever os animais. Chegou lá na Varjota do  Pudrim –que hoje está debaixo das águas do açude do Chapéu - e verificou que a onça tinha comido o filhote de eqüino. O amigo chegou em casa e informou o ocorrido: “Bernardo, a onça comeu seu pudrim,lá na varjota!”

“Eu vou matar essa danada!”, retrucou Bernardo.
Chamou um morador do lugar, estumou os cachorros e pediu em voz alta antes de sair de casa: “Eu num quero que Santantoin seja por mim nem por ela, quero que me mostre ela” Saíram a busca, Bernardo, o morador e o cachorro. Chegando na carniça,os cachorros pegaram o rastro.Tei,tei,tei...foram bater na furna.Na pedra da furna...O camarada que foi com ele subiu por cima da pedra, rodeando, e ele marchou para a boca da furna.        

Sim!Ele tinha saído de casa com uma zagaia, uma arma chamada zagaia...Então baixou para a boca da furna. Para boca da furna partiu...aí os dois se atracaram,a onça e ele. Aí ele sentou a zagaia na onça?, Pergunta Seu Aloísio, cortando a narrativa. Calma homem, adverte Seu Canela continuando a tecer pela memória e estória. Bem, então se atracaram...

 

Quando o companheiro rodeou de lá, que desceu, estava ele estirado para um lado e a onça para o outro. Ela tinha sentado as unhas na cabeça dele. O couro cabeludo ela botou pra cima dos olhos. Por todo o corpo ficaram os golpes. Enquanto isso, ele tinha cravado a felina, com a tal arma, bem em cima do coração.         

O companheiro na caça à onça, compadre de Bernardo, foi pra casa avisar e pedir ajuda.Vieram buscar os dois. A onça num pau e ele estirado numa rede.          

O Capitão Joaquim Felício, o pai do Cosolino, nesse tempo era o médico que tinha por aqui, lembra Seu canela. Foi ele quem costurou a cabeça dele, que ficou toda remendada. Foi por isso que ele ficou conhecido como Bernardo Faiado. E o Bernardo escapou? Pensei que tivesse morrido, interpela Seu Aloíso.   
          

 

Ele matou a onça, se safou, mas escapou fedendo, respondeu Seu Canela, como querendo por fim ao acontecido, no infinito das narrativas imemoriais. 

 

(Na foto: No descanso de casa, o centenário Seu canela tece o fio de memória coletivo no contar na vida)                           

Postado por: Antonio Carlos Lemos da Cruz - Professor da Rede Pública de Ensino de Quixeramobim e integrante do Conselho Fiscal do Iphanaq - ant.carloscruz@hotmail.com

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6 Comentários

por Neto Camorim, em 09 de Abril de 2009 as 07:56
Amigo Antonio Carlos, são através dessas histórias que precisamos entender o quanto é importante preservar a nossa tradição oral com sua riqueza de conhecimentos e saberes, que os sertanejos de nosso torrão, ainda teimam em resistir e nos presentiar , com esses relatos preciosos desses senhores do tempo e da história, muitas vezes esquecidos. Fico feliz e parabenizo-lhe mais uma vez, pela sua capacidade peculiar de escrever esses relatos riquíssimos, que só vem reforçar a necessidade cada vez maior, de se preservar e valorizar esses sujeitos históricos e sua memória, construída no caso do Bernardo Faiado, narrado pelo seu tio Canela. Valeu Guaru, é assim que iremos reconstruindo e construindo a nossa história e nossa memória coletiva, onde o sertão e a grandiosidade no sertanejo, sempre tem algo importante a nos ensinar. Como você mesmo diz: "delícia"!
por João Vianey Fernandes Pimentel, em 08 de Abril de 2009 as 00:01
A narrativa faz-nos lembrar os inúmeros poetas, repentistas e artistas do Nordeste, que hoje acham-se esquecidos de nossa memória, ofuscados pelas telas das TVs que nos bombardeiam de babaquices as quais preferimos por imposição de uma cultura dominante.
por Danilo Almeida Patrício, em 07 de Abril de 2009 as 17:17
Na voz de Seu Canela, viver também é delicioso. Parabéns
por Ailton Brasil, em 07 de Abril de 2009 as 16:45
Valeu Antonio Carlos. São tantas as memórias e as histórias que engrandecem nosso sertão e cria na gente a sensação que o tempo não passou, que ainda estou escutando as histórias contadas nas calçadas, nas noites de luas e nas debulhas de feijão. Bela volta ao passado. Abraço amigo.
por Marcos P. S. Barbosa, em 05 de Abril de 2009 as 20:43
Professor, Meu parabéns por sua capacidade de transferir o oral para a escrito.O senhor narrou perfeitamente a arte de contar estórias de seu Canela. Além disso, recordou-me o texto de Bruno Paulino, onde ele nos chamava atenção para o valor das estórias e histórias transmitidas através da oralidade. Os textos se completam. PARABÉNS.
por Bruno Paulino, em 05 de Abril de 2009 as 10:27
Professor o texto que escreveste é uma contemplação da voz humana, voz que faz as historias atravessarem o tempo pelas veredas do grande sertão,tenho certeza de que a oralidade e as historias nunca morrerão é por isso que já tem relato de caçador que caça onça armado de bafômetro(pra saber se o bafo é de onça mesmo). abraços, desse eterno aluno que sempre tem algo a aprender com você.

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