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19/05/2011
À sombra de um pé de cajá

Alegria não tem passado, e a recolho em notas apressadas, as impressões mais tocantes, os instantes mais saborosos, as lembranças mais coloridas, as saudades inapagáveis, recolho-as e as reparto, deixando de fora emoções indescritíveis. Tudo foi ontem, sobre a sombra de um pé de cajá.

No espaçoso quintal, era onde o frondoso e cinquentenário cajazeiro reinava absoluto, na casa de vó Tereza e Vô Luis. Lá que as festas da família Paulino aconteciam. Ali, o tempo não aceitava a modernidade no que se refere ao prazer sem culpa. Fogão de barro à lenha na cozinha, santuário e baú de memórias no quarto, radiola tocando Luiz Gonzaga na sala, o convite à cadeira de balanço preguiçosa ou à boa rede de varandas davam um ar de aconchego à casa modesta “do outro lado rio’’.
O aniversario do vô Luis era o dia mais esperado do ano para todo mundo que frequentava aquela casa.

Como vovô nasceu em 10 de maio, a família aproveitava o segundo fim de semana do mês para também comemorar o dia das mães. A filharada e o arsenal de netos, primos, parentes e amigos se reuniam, religiosamente, para prestigiar o patriarca e as mães da família numa baita festa. Mas hoje não tenho duvida de que o carisma de minha avó era o que proporcionava a reunião de todos ali, naquele dia.

A festa começava geralmente no sábado. Na chegada era uma fila de voz dizendo benção mãe, benção pai, benção vô, benção vó. Depois, quem era homem adulto e bebia, tomava as suas canas pra alegrar o coração. Quem não bebia aproveitava pra botar a prosa em dia e matar as saudades da parentada. As mulheres corriam todas pra cozinha. Para as crianças, a data era a visão do paraíso, pois naquela casa onde o quintal era trancado e proibido durante todo o ano, nesses dia se abria e ganhava um barulho novo, além do som pássaros, que lá faziam moradia: o pé de cajá conhecia o barulho da alegria correndo sob os galhos.

No cardápio, comida light não tinha, o que se comia era Mugunzá, feijoada, torresmo, feijão tropeiro, farofa, carne de porco e outras coisas do gênero. Enchia-se o bucho da freguesia, que no domingo seguia na animação. Vó Tereza sempre convidava tocadores de viola pra animar a festa, que seguia com jogo de baralho e brincadeiras à sombra do pé de cajá, que ainda hoje produz frutos abundantes. Frutos fora do tempo e dentro da saudade, de doçura azeda que surpreendem a qualquer um, que deles prova, o gosto do reencontro.

Adorava ver aquela casa cheia de gente, matar as saudades de meu avô meio alheio àquela festa toda, feita em sua homenagem. Vê-lo fumando seu cigarro e dando seus dois dedos de prosa. Ouvir minha vó contando seus casos (nunca existiu no mundo alguém que contasse casos como ela), e esperar pelo domingo à tardinha, na hora de cantar os parabéns, no momento de partir o bolo. Às vezes alguém discursava e fazia-se uma oração, mas Deus falava a todo mundo pela boca da vovó e pela benção de vovô.
Postado por: Bruno Paulino é graduando de Letras (Uece-Feclesc) e integra a ONG Iphanaq, Coordenando o Projeto Papo Cultural

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10 Comentários

por ana maria domingos paulino, em 14 de Agosto de 2011 as 18:53
olha bruno meu primo você era bem pequeno, mais descreveu direitinho o que acontecia nesse dia.E ainda descrevo mais,nesse tempo em que tudo isso acontecia eu morava na canafístula. um carro da fazenda já era garantido prá levar toda a família prá essa comemoração tão importante todos os anos já era certo.Meu pai, Oliveira paulino tinha aquela satisfação de levar todo mundo.Era muito gostoso.
por Danilo Patrício, em 25 de Maio de 2011 as 11:48
Dona Tereza, da voz alegre, de tremor diferente, e conteudiscamente bem brasileira, se posso chamar assim. Seu Luiz passando a firmeza, um saber das coisas imemorial, de quem me lembro ao recordar nessa mesma casa, noites de sábado, dos bonecos de empanada: tempos de casemiro. Alegria em ter participado um pouco dessa temperança, lá chegado após ter caído aos quatro anos na Tenente João Machado, e através da amizade inicial com a serena Dona Carola, matriz dali que se ligava ao "baijo". De lá, tenho a lembrança de bons domingos, vividos soltos no campo de futebol do Grupo do Jaime Lopes, como chamavam a escola. Na TV de Campeonato italiano ainda em tempos de Luciano do Vale. E outras lembranças tantas, das quais escolho para encerrar, o sabor da figada de porco. Lembrança essa proustiana a lembrança, para homenagear meu hoje amigo Bruno, que naquela época bolava entre os meninos menores, na turma café com leite. Mais do que Nostalgia, o texto é o elaborar sensível ético do que se quer, para que se vive e em nome de que, pela capacidade de inventar o tempo carregar pro futuro a força de aprendizados, conseguindo superar as perdas e as fazendo jorrar pro futuro. Abraço aos presentes nesse tempo. E parabéns ao Bruno! Danilo Patrício!
por Padre Adauto Farias, em 22 de Maio de 2011 as 00:00
Parabéns, meu caro Bruno! O seu texto é tão bom e tão verdadeiro que se equipara a grandes textos de Graciliano Ramos e Raquel de Queiroz! Pode escrever o seu livro e me convidar pro lançamento que eu vou. Deus abençoe a sua vida e sua missão em meio as palavras. Graça e Paz!
por Nayara Ribeiro, em 21 de Maio de 2011 as 23:39
Querido Bruno, adorei seu texto por dois aspectos: a forma e o conteúdo. Você tem um jeito todo especial de escolher as palavras certas, adequando-as ao conteúdo de forte carga sentimental e que revela sua relação com sua família. E me deixou por último uma mensagem meio que nas entrelinhas de que a felicidade está nas coisas mais simples. PS: Se for escrever um livro me convida pro lançamento, dou a maior força, se quiser começar já pode. Beijos!!!
por Léo, em 21 de Maio de 2011 as 12:19
Grande Bruno! Enquanto lia seu texto parecia que escutava a voz da Vovó! Belo texto, belas memórias você nos trouxe. Procurei palavras pra expressar o quanto esses momentos eram maravilhosos. Mas como não sou tão bom em "brincar com as palavras", como nosso grande amigo Antônio Carlos bem frisou, me contento em dizer que eram momentos mágicos. Só faltou uma coisa: nessa data também se comemorava o seu aniversário! rsrsrs Parabéns Brunão!
por Antonio Carlos da Cruz, em 20 de Maio de 2011 as 16:35
Parabéns Brunão, A cada dia você se revela como um cronista de primeira linha. Tua escrita é envolvente,poética e possibilita ao leitor uma relação afetiva e literária com o texto que é a própria "douçura azeda" de quem sabe tão bem sabe brincar com as letras. Um abraço do amigo, Antonio Carlos.
por Kalinny Brito, em 20 de Maio de 2011 as 15:30
Parabéns Bruno,impressionada com tamanha sensibilidade,a nostalgia do seu texto me fez lembrar da minha infância. Mais uma vez parabéns,Belo texto.
por Luís Carlos, em 20 de Maio de 2011 as 12:28
Parabéns ao Bruno pela propriedade em sintetizar boas reminiscências comuns a todos os filhos e netos do casal modelar que é (pois permanece vivo em nossas memórias)Luiz Paulino e Tereza Paulino.
por MARCOS SANTIAGO, em 20 de Maio de 2011 as 11:44
Meu querido primo, há tempos não sentia vontade de chorar (principalmente de alegria), quando lir seu texto !!!!. Alegria de ter feito parte dessa história e de fazer parte dessa família. Essa data para nós era a mais importante do ano, me dói muito não tê-los mais aqui em nosso convívio, saber que nunca mais eles estarão fisicamente conosco, porém, as vezes me dá uma sensação de que ele estão alí. Domingo mesmo, no dia das mães, que fomos lá, era como se eles estivessem ali olhando para nós. Era como se eu ouvisse o vovô dizer deus lhe abençõe e a vovó dizer: Deus lhe abençõe meu filho, cadê meu presente.
por Camila, em 20 de Maio de 2011 as 10:11
Olá Bruno. Amei seu texto. Lendo ele, pude me ver em meio aos acontecimentos. Muito gostoso de se ler. Deu vontade de conhecer esse pé de cajá. Abraços.

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