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18/04/2013
Francisco Chagas da Paixão: História, Memória e Missão de um Sábio do Sertão

No dia 22 de março de 2013, depois de uma longa e bem vivida trajetória de 90 anos de idade, nos deixou para morar junto ao pai, o grande amigo Francisco Chagas da Paixão, o “Fransquim Izaque”, como era popularmente conhecido.

Residente em Berilândia desde 1962, mas nascido no outro lado do Riacho Valentim, na localidade de Riacho da Roça, no dia 30 de janeiro de 1923. Lá viveu toda a sua infância e parte de sua vida adulta. Trabalhando na agricultura nas terras do Condado, Riacho da Roça e região, enfrentou muitas dificuldades para criar e educar seus filhos. Foram 16 no total. Criou 15, mas deixou 14, pois um faleceu aos 21 anos de idade e o outro prematuramente na infância. Nunca pensou em abandonar o seu torrão natal. Era o que sempre me dizia quando nos encontrávamos, geralmente na sua residência.

Tive a honra de conhecer seu Fransquim em 1992, após as santas missões populares na região de Berilândia. Missões essas comandadas pelo nosso querido amigo Pe. Paulo Ernando, que por muitos anos foi amigo de todos da comunidade, e de maneira especial da família de um saudoso amigo, também já falecido, Barroca Vitorino.
 
Nesta época eu morava no Coque e era articulador das CEBs (Comunidades Eclesiais de Base) da região, juntamente com o amigo Josenir Lopes, que morava na comunidade de Cosmo Paz. Não tive a oportunidade de participar das missões em Berilândia, pois estava servindo à Paróquia de Santo Antônio em outras regiões. Quis a vontade divina ou as casualidades da vida que eu tivesse a alegria de conhecer o seu Fransquim só após esse grande momento de animação da fé.

Após as missões, visitando a comunidade enquanto articulador e participando de encontros pastorais e celebrações do culto dominical em Berilândia, tive os primeiros contatos com ele. E logo percebi quanta sabedoria e vasto conhecimento tinha este homem de poucas letras. Não apenas da palavra de Deus, pois depois soube que era um assíduo leitor da Bíblia, algo comprovado nas suas leituras e reflexões realizadas durante as celebrações. Mas também de uma leitura grandiosa de mundo. Era entendido de política, economia, cultura, religião, etc.  Tinha uma sabedoria invejável.

Ele sempre dizia, “quase não freqüentei a escola. Aprendi porque sempre gostei de ler tudo. Até as informações contidas no calendário”, uma de suas leituras diárias. Gostava muito de me dizer: “quem sabe muito é você, que teve oportunidade de estudar e se formar. Eu aprendi quase nada”. Sempre falava isso com uma simplicidade e humildade peculiar. E eu refutava: “O senhor sabe mais porque tem mais experiência”.

Era um grande conhecedor da História do Brasil e do mundo. Sempre preocupado com o futuro de nossa nação, me perguntava: “O Brasil tem jeito”? Ficava buscando explicações para os problemas de nosso país. Era curioso por informações, ouvinte assíduo do noticioso “A voz do Brasil”, para se manter bem informado. Em minha opinião, isso é o segredo de ter aprendido tanto. Era curioso, tinha busca constante pelo saber, apesar de ter freqüentado pouco a escola. Mesmo não reconhecendo ser merecedor de tanto conhecimento, ele foi um homem que nos deixou ensinamentos diversos, durante toda a sua vida.

Era um apaixonado pelo sertão. Lembro das vezes que me perguntava: “Você conhece São Paulo”? E eu dizia: “Não”! Ele me respondia: “Você precisa conhecer, tem muito que aprender por lá”. E me dizia: “Já fui a São Paulo várias vezes. Gosto muito de passear e visitar os meus 10 filhos que moram lá. É uma cidade bonita, tudo é muito grande, mas não quero jamais deixar o meu sertão. Quero morrer aqui”. E isso se concretizou.

Eu ainda hoje não fui a São Paulo. Espero um dia conhecê-lo e comprovar aquilo que sempre ele me dizia em relação a essa grande metrópole.

Seu Fransquim foi fiel às suas origens. Faleceu no seu sertão, honrando as suas raízes históricas e culturais, mantendo a sua identidade de sertanejo. Bem diferente do que presenciamos hoje em dia, quando a maioria do povo do sertão tem vergonha de assumir-se como tal. Fogem ou são expulsos para as periferias das cidades negando, muitas vezes, sua história e identidade cultural. Ele resistiu, ficou até o fim. Ou quem sabe, o começo de uma nova missão ao lado de Deus, preparando os caminhos para quando nos encontrarmos.

Tenho muitas recordações e aprendizados de nossas conversas na sua casa. Era sempre um bate papo agradável, prazeroso e de muita sabedoria na sua sala. Depois seguíamos para a cozinha, onde nos deliciávamos com um saboroso café e um gostoso queijo, preparado com todo o carinho e atenção pela sua esposa, Dona Lucinda. O nosso último encontro mais demorado, quando tínhamos vivenciado tudo isso, aconteceu no dia 26 de setembro de 2009, na primeira vez que o Cineclube Iphanaq fez exibição na comunidade de Berilândia, na Escola Jonas Gonzaga.

Caro leitor, a partir de agora quero pedir sua licença para dirigir-me especialmente, ao amigo Fransquim Izaque. E ao mesmo tempo, convidá-lo a participar desse momento.

Querido amigo! Apesar de que nos últimos anos tenhamos nos encontrado tão pouco e quando aconteceu foi muito rápido, eu nunca esqueci a nossa amizade. Mesmo morando em Quixeramobim, geograficamente mais distante, vez ou outra vinha lhes visitar. Atualmente devido minha atividade enquanto professor e com ações culturais que participo e desenvolvo, tinha demorado mais a gente se encontrar. Mas toda vez que encontrava suas netas e filhos na cidade, sempre perguntava pelo amigo para saber como estava, e lhes enviava notícias, dessa vida louca e agitava que passamos a ter quando vamos morar na cidade. O senhor, é que estava certo, nasceu, viveu e morreu no sertão.

Aprendi muito com nossas conversas. Vou levá-las para sempre em minha vida. Elas eram cheias de sabedorias e experiências, mesmo demorando nos encontrar, nesses 21 anos que lhe conheci. Tenho muito orgulho de ter construído com o senhor e sua família essa grande amizade. E na visita que fiz à sua esposa, seus filhos e netos, após seu falecimento disse a eles. “Espero que nossa amizade continue, e não se acabe. Tenho certeza que é esse o seu desejo. Pois sei que foi um homem justo, trabalhador e honrado que sempre prezou os amigos aqui na terra e tão dignamente cumpriu a sua missão. Que esses princípios cultivados pelo senhor, tenham continuidade com seus familiares e amigos que tiveram a honra e o privilégio de aprender com os seus ensinamentos. E assim manter viva a memória deste homem que na terra sempre procurou semear o bem”.

Quero encerrar minhas palavras com uma frase que frequentemente ouvia, toda vez que conversávamos e que fazia elogios à sua capacidade intelectual e sabedoria de homem do sertão, com o qual sempre aprendia a cada encontro realizado. Dizia: “Será que eu mereço? O que faço para pagar tudo isso?” Eu respondia: “O senhor merece sim. E o pagamento é a nossa amizade”. Ressaltava.

Querido amigo! O senhor merece é muito mais, pela grandeza, determinação e força interior que teve durante toda a vida. Construir uma família e uma bela história com as dificuldades que enfrentou só os sábios e corajosos são capazes. E o senhor foi um desses em nosso sertão. Que sua memória e exemplo de vida sejam eternizados por todos nós.

Eternas saudades! Qualquer dia amigo, a gente vai se encontrar.

Um grande abraço do amigo!
Postado por: Neto Camorim – Historiador e integrante da Ong. Iphanaq / netocamorim@gmail.com

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1 Comentário

por Francisco Almeida Paixâo , em 03 de Novembro de 2013 as 08:50
Eu: Francisco A. Paixão moro em São Paulo a 32 anos, filho de Aristides Paixão irmão do meu saudoso tio Fransquim,tenho muito orgulho de ter tido um tio maravilhoso com toda essa sabedoria que nem eu sabia que ele tinha todo esse conhecimento. Fico aqui com muito orgulho pela sabedoria e experiencia de vida que esse grande Homem deixou para nós, do sertão e outras regiões. Muito obrigado. Um grande abraço.

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